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Por que os 10 primeiros anos de Independência Financeira são críticos ?

Risco de Retornos negativos Sequenciais

Um dos maiores riscos para os FIREes que desejam gerar sua renda a partir de uma carteira volátil de investimentos são os retornos negativos no início da "aposentadoria". Muitas vezes chamamos isso de Risco de Retornos Negativos sequenciais ou Sequence Of Returns Risk em inglês. Quando você retira dinheiro de um portfólio de investimentos, retornos negativos no início da aposentadoria podem resultar em que o portfólio termine muito antes dos seus planos.
Esse risco de falha prematura do portfólio na aposentadoria como resultado de baixos retornos de investimento no início da aposentadoria foi destacado por pesquisas feitas por Will Bengen na década de 1990. Sua pesquisa demonstrou que, historicamente, a taxa de retirada segura de um mix nos EUA composto 50% de ações a 50% de títulos públicos era de apenas 4% por um período de 30 anos.


Na prática

Você já sabe que uma carteira de investimentos balanceada deve incluir renda fixa e renda variável, ou seja, ações, ETFs, fundos imobiliários, etc.

Como todos sabemos, a renda variável é guiada pelas variáveis macroeconômicas locais, nacionais e internacionais nos diversos mercados. Perdas temporárias que ocorrem devido a condições de mercado adversas não prejudicam você tanto quando está trabalhando e gerando renda ativa. Suas despesas do dia a dia são atendidas pelo seu trabalho diário (ou fundo de emergência, se as coisas ficarem difíceis), para que você possa atravessar a tempestade sem ser forçado a entrar em pânico e vender seus ativos. 
Você simplesmente aguenta as perdas, compra mais ativos a preços mais baratos todo mês, rebalanceia seu portfólio e sai sorrindo do outro lado quando o mercado retomar. 


Mas quando você declara FIRE, o jogo muda.

O período mais crítico para quem começa viver de renda são os primeiro 10 anos.

Mas por que o início é tão crítico ?

Vamos supor que você se aposente e esteja com uma carteira balanceada composta por ações ou ETFs e FIIs. 
Uma recessão de mercado como ocorreu no Brasil no início da década, dura por mais ou menos 5 anos. Se isto ocorrer bem no momento em que você se "aposenta" ou vira FIRE, você poderá ser forçado a vender ativos para financiar sua aposentadoria no pior momento possível. Mais tarde, quando o mercado se recuperar, o que sempre inevitavelmente acontece, você terá menos recursos do que quando você começou e não poderá participar plenamente da recuperação, já que retirou parte dos fundos para pagar suas contas e não estará aportando mais neste momento.

A TSR prevê ou requer que vendamos uma porcentagem (usualmente 4% ou a diferença entra a renda passiva e os 4%) do portfólio anualmente para prover fundos para as despesas do dia a dia (viver de renda). 

Supondo que você aposente com 1 milhão e saque 40 mil ao ano (R$ 3,300 ao mês) para custeio de vida. Se o mercado derreter e seu portfólio perder 15% do valor em um ano você terá agora apenas 808 mil reais. Para sacar os 40 mil no ano + inflação, sua TSR ao invés de 4% será agora de 6,05% para prover o mesmo capital.
Imagine que isto perdure pelos 5 ou pior, 10 primeiros anos, o resultado pode ser desastroso pois, ou você terá que reduzir drasticamente seus custos e talvez até voltar a trabalhar, ou comprometerá a sustentabilidade do portfólio ao usar uma TSR corrente muito mais alta do que a inicialmente planejada. 
Veja abaixo uma simulação para um caso onde os 5 primeiros anos foram de péssimos retornos, alta inflação. Após 9 apenas 9 anos você já estaria sem dinheiro e tendo que voltar a trabalhar:


Clique para ampliar

E depois dos 10 primeiros anos?

Caso nenhum imprevisto ocorra nos anos iniciais, espera-se que o portfólio geralmente se torne tão maior do que o inicial que vai suprir a TSR planejada por longos anos e superar.  Para isso é necessário, com certa consistência, bater a inflação + 4%a.a. de saque da TSR.
Supondo que você tenha se aposentado com 1 milhão. Ao longo dos 5 primeiros anos o mercado praticamente só subiu e o retorno médio do seu portfólio foi de meros 6% ao ano (geralmente é bem mais em um portfólio contendo renda variável em um bull market). Agora você terá R$ 1.340.820. 
A TSR 4% deste novo montante seria R$ 4,469 ao mês. Como sua TSR é baseada no valor original inicial de R$ 3,300*, é como se você aportasse R$ 1,169 ao mês ao seu portfólio, tornando-o ainda mais resistente a quedas futuras de mercado. Caso sua estratégia seja via renda passiva, este aporte é, ou deve ser, real. Se o mercado deste ponto agora cair 20%, você teria R$ 1.072.656 reais ainda. Sua TSR de 40 mil ao ano estaria ainda 100% segura.

Abaixo simulamos uma carteira mix diversificada com números próximos a realidade, bem como inflação fictícia no início, para mostrar o comportamento esperado caso não haja quedas acentuadas ou prolongadas nos primeiros 10 anos FIRE. Veja:
Clique para ampliar

Como se proteger dos Riscos da uma sequencia de retornos negativos ?

Algumas opções para se proteger de um crash prolongado do mercado nos primeiros anos de independência financeira são: 

  • Contar com renda de outras fontes como aluguel ou "bicos"; 
  • Ter uma reserva em dinheiro fora do portfólio; 
  • Contar com dividendos e criar a chamada Yield Shield, migrar mais pesado para renda fixa/FIIs pouco antes de se aposentar; 
  • Trabalhar algum tempo a mais se o bear market estiver no início
  • Veja aqui mais opções


Por que não focar só em renda passiva então?

Muitos perguntam por que não focar inteiramente em uma carteira de pagadores de dividendos desde o início então? Por que estas carteiras geralmente focam em grandes empresas estabelecidas com baixo potencial de crescimento. Apostando somente nelas você estará perdendo uma parte significativa dos retornos totais proporcionados por small caps e mid-caps por exemplo e sua carteira retornará abaixo da média do mercado no longo prazo.
Empresas como Amazon, Tesla, Google, Facebook, Magazine Luisa, CVC, etc não pagam dividendos ou se pagam possuem um Yield muito baixo exatamente por que estão usando todo caixa para reinvestir e entregam seu retorno na forma de ganhos de capital e não dividendos. Se você não investir nelas por que busca apenas dividendos, você estará perdendo um potencial ganho muito grande e provavelmente retornando abaixo da média do mercado.
A medida que a data FIRE for chegando ai sim você vai querer ir migrando de uma carteira focada em retorno total para uma que lhe dá mais segurança e retornos em forma de fluxo de caixa mensal ou trimestral pois é com isto que pagará suas contas e se protegerá parcialmente do risco sequencial explicado acima.


Concluindo...

Finalmente, recomenda-se muita flexibilidade a todos os que estão no caminho FIRE. Se adaptar a realidade da economia e do mercado é fundamental. Reduzir a TSR em tempos de crise também é uma boa estratégia, além de procurar renda extra de alguma forma.

Tão importante é planejar seus investimentos de acordo com a fase de vida que está vivendo de modo a obter o máximo retorno com o menor risco possível.


11 comentários:

  1. Ótimo post, Aposente!

    Acho MUITO difícil para nós mortais nos aposentarmos por completo. Porém acho super "menos difícil" conseguir uma semi-IF. Os motivos que penso da dificuldade são justamente essa total dependência do seu portfólio como renda. Arriscado.


    Abs

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    1. Arriscado é no começo se algo de ruim acontecer. Mas depois de algum tempo sua carteira vai crescendo exponencialmente (juros compostos) e se torna auto suficiente desde que vc não aumente o padrão de vida radicalmente

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  2. No futuro quero ter uma renda passiva tipo Luiz Barsi só de proventos sem precisar de vender nada, ai fico quase imune as crises.

    Se poder vote no enquete no meu blog "como voce pretende usar o seu décimo terceiro"

    Abraço e bons investimentos

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    1. Isso seria o ideal DIL. Na verdade nos EUA, os ETFs do S&P por exemplo tem dividend yield (rendimento de dividendos) na casa dos 2%aa hoje em dia. Teoricamente você tem metade da TSR só de dividendos pingando na conta sem precisar vender nada, nào importando se o marcado cair ou subir. Infelizmente no Brasil os ETFs como BOVA11 e PIBB11 nào ve nada pingar na sua conta, o que para mim é bem irritante!
      PS: Votado

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  3. Pergunta de novato.
    A estratégia de investimento que eles apresentam no Millenial Revolution nao pode ser replicada na bolsa brasileira?
    Digo, investir 60% em etfs indexados ao ibovespa, 40% em renda fixa, e ir balanceando pra manter essa proporcao conforme os ativos
    valorizam/desvalorizam.
    Se nao, por que?
    obrigada desde logo

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    1. eu confesso que tinha ficado bastante animada com a perspectiva de investir a partir da "receitinha de bolo" do millenial revolution, até comecar a perceber que tal receitinha nao se aplica ao mercado brasileiro :(

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    2. Poder você pode. O problema é que vivemos em um país emergente e não nos EUA que é um país desenvolvido. A renda variável em Países emergentes é muito mais volátil e pode levar a perdas muito maiores que em países mais estáveis. Além disso, a renda fixa no Brasil oferece retornos muito mais gordos que nos EUA. Então para que você vai correr um risco grande investindo 60% em bolsa quando você consegue rendimentos bem bons investindo com risco muito mais baixo em renda fixa?
      Nos EUA não existe muita escolha. O tesouro direto deles paga cerca de 1 a 2% aa só. Eles tem que ir para a bolsa e correr maior risco para ter retorno maior e haverão anos que as perdas serão grandes, mas na média no longo prazo lá a médoa é de mais de 7%aa.
      Você pode usar uma estratégia assim, mas inverter ou melhor, ir 80% renda fixa e 20% bolsa no Brasil que é bem mais utilizado.
      Espero ter ajudado

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  4. Uma opcao é trabalhar um pouco mais. Ao inves de parar com um milhao parar com 1,3 milhoes.

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    1. Exatamente vaga. Tem uma reserva em cash para não precisar vender nada a preço de banana é umas das melhores soluções. Ainda mais no Brasil onde temos tesouro selic e cdbs com rendimento diário para colocar essa reserva. Já nos EUA nao tem nada parecido com este rendimento e liquidez diaria. Investir no Brasil é uma barbada. Tomara que isso dure.

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  5. AA40,

    Acho temerário querer se aposentar e deixar todo o dinheiro investido no Brasil. ETF no Brasil? Piada né.

    Como você bem pontuou, nos EUA existem as ações que pagam dividendos regularmente e muitas delas pagam ininterruptamente há 25, 50 e até 100 anos. O ideal é ter uma carteira de investimentos no exterior também pra se deliciar desses dividendos.

    Vamos ao cenário que você colocou. Se vai tá ruim pro Brasil, provavelmente estará bom pros EUA, ou pelo menos o dólar dá uma disparada novamente pra 4 reais. Com apenas 900 Trumps você consegue seus 4%. Mesmo que tenha que vender algo, você não precisará vender muito pois além dos dividendos que recebe mensalmente (variando as empresas) você poderá precisar sacar apenas a diferença.

    Claro, há estudos mais detalhados no caso de cambio e tal mas é só um exemplo de que uma carteira no exterior também protege a gente da nossa própria economia.

    Abraço!

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    1. Concordo em partes BPM. Com certeza dividendos lá são muito mais seguros e é uma estratégia boa não tem como negar. Agora, para conseguir $900 em dividendos usando o ETF mais popular de lá (SPY) que está com um yield de 1.81% aa, vc precisa ter investidos 600 mil dolares. Claro que pode escolher empresas mas ai aumenta ainda mais o risco. Câmbio tem estado numa tendencia de baixa ha algum tempo e se a economia brasileira retormar vai cair mais, pois a americana está no auge em bull mkt há anos e a tendencia pela teoria dos ciclos economicos é estagnação e até recessão em alguns anos.
      Eu pessoalmente tenho investimentos fora, mas o rendimento de dividendos é pequeno e o leão abocanha uma boa parte dos rendimentos, mas sim, a partir de uns 500 mil reais já é bom colocar alguma porcentagem no exterior ou ao menos comprar um IVVB11.

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