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O inventor da "regra dos 4%" acabou de mudá-la

Já se passaram mais de 25 anos desde que William Bengen, um consultor financeiro do sul da Califórnia, criou a "safemax" que ficou conhecida como “regra dos 4%”, que depois foi aperfeiçoada pelo estudo Trinity

Você já conhece a famosa regra deste post aqui, mas simplificadamente, ela diz que se você quiser garantir que suas economias durem pelo menos o mesmo tempo que você, você deve fazer um orçamento para gastar não mais do que 4% do saldo do seu patrimônio líquido inicial - e então apenas ajustar o valor a cada ano em compasso com a inflação.

Esta regra se tornou uma espécie de doutrina no mundo financeiro, com metade das pessoas assumindo como uma verdade absoluta e outra metade como uma verdadeira heresia.

Recentemente W. Bengen, que aos 74 anos vendeu sua empresa de planejamento financeiro e se mudou da Califórnia para o Arizona, atualizou seus números:

Ele não está pessoalmente usando a regra dos 4% mais e diz que esse número sempre foi tratado de forma simplista.
Ele diz que os 4% foram, historicamente, apenas o "pior cenário". Baseou-se em alguém que se aposentou nos EUA no pior momento que pôde encontrar nos tempos modernos: outubro de 1968, quando o mercado de ações atingiu o pico e a inflação galopante estava começando. Alguém que se aposentou naquele momento teve que enfrentar uma queda no mercado de ações dos EUA que duraria 14 anos e uma inflação vertiginosa que esmagou o poder de compra de suas economias e triturou os títulos de renda fixa.

 "Alguém que se aposentasse naquela época ainda estaria bem por 30 anos se não retirasse mais do que 4%", diz Bengen.
Mas, acrescenta, em outros momentos da história - quando a inflação estava baixa e as ações e títulos de renda fixa estavam baratos - um novo aposentado poderia ter retirado muito mais e se saído muito bem. Historicamente, diz ele, a taxa média de retirada segura é de cerca de 7% e, em alguns pontos, chega a 13%. Em 2012 ele atualizou o estudo original para 4,5% mas não obteve tanta audiência quanto no primeiro trabalho.

Seus cálculos, aliás, são todos baseados em uma carteira de aposentadoria conservadora, onde você mantém 30% do seu dinheiro no S&P 500 (SPX), 20% em pequenas empresas americanas, como o S&P Small Caps 600 (SML), e 50% em títulos intermediários do Tesouro dos EUA (TMUBMUSD07Y)

Bengen cita o trabalho do planejador financeiro Michael Kitces que relacionou a TSR com o quanto o mercado está caro ou barato (Shiller CAPE). Segundo ele, este é o gráfico mais importante criado até hoje complementar ao estudo original.

Fonte: fa-magazine/ W. Bengen / M. Kitces (intervalos de 30 anos)

Quanto menor o Shiller CAPE, maior a TSR possível. Você pode ver a Shiller CAPE em tempo real aqui e ela está relativamente alta atualmente.


Então, onde estamos agora?

Bengen diz, com base no ambiente atual, que acha que um novo aposentado americano deve estar seguro se começar com uma taxa de retirada de não mais que 5%.

Isso é o que eu mesmo uso”, Bengen disse em entrevista por telefone ao  Brett Arends do MarketWatch.

"Não é uma mudança radical dos 4%. Mas a regra dos 4% agora é uma regra dos 5%, se quiser."
Isso coloca Bengen em desacordo ainda maior com aqueles que pensam que o número deveria ser inferior a 4%, e não superior, por causa dos preços recordes de ações e títulos de hoje (yield nas mínimas históricas).
“A média é de 7%”, afirma. “4% é uma regra bastante severa. 4% é o ‘pior cenário’.

Ele concorda que todas as ações e títulos parecem muito caros pela maioria dos padrões históricos. “As ações não têm muitos retornos prospectivos. Todos os ativos financeiros têm retornos prospectivos baixos.". Mas, diz ele, os aposentados agora têm uma vantagem muito grande em relação ao pior cenário: a inflação muito baixa.
Bear Markets vem e passam, mas os preços mais altos, uma vez que chegam, nunca voltam para onde estavam antes. “Quando você tem inflação, ela vem para ficar”, diz ele. “Você está preso com os preços mais altos pra sempre. O pior dos mundos seria uma volta da inflação alta”.

A safemax ou TSR “Não é uma lei da natureza”, acrescenta ele. “É empírico” - em outras palavras, com base apenas nos dados que temos, desde a década de 1920. “Ela não serve para todos”, e o número que você escolher “pode ser qualquer um”, diz ele.

Fonte: Brett Arends, MarketWatch, traduzido e adaptado por AA40




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17 comentários:

  1. Olá AA40, interessante esse estudo que nos trouxe, não sabia de sua existência. Isso traz um certo alívio diante da rigidez dos 4%. O ideal seria que cada investidor fizesse suas escolhas em relação ao % do PL que pode retirar por ano com base no rendimento global da sua carteira (por alguns anos) menos um n° que traduza a sua inflação pessoal com base na seleção de produtos/serviços que consome (tb, uma média definida em alguns anos). Abs!

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    1. Concordo com vc Hank. Sempre falamos que os 4% é um balizador apenas, não um mandamento bíblico. Eu continuo planejando usar 4% por segurança e se puder baixar para 3.5% melhor. Mas é um alívio saber que o inventor da TSR vê que 5% não é um absurdo e que a inflação é que é o principal gargalo.
      Abcs AA40

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  2. Desculpe minha ignorância. Mas isso quer dizer se tenho 500k investido boa parte em ações e FIIs poderia retirar 25k e o montante se manter o restante da minha vida?

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    1. Sax, isto nos EUA, sempre lembrando. Sim, segundo Bengen, 5% seria sustentável para uma carteira com 50% em S&P500 e small caps. Você poderia sacar 25k por ANO (2k mês) e manter seu poder de compra graças a baixa inflação por lá. No Brasil a história é um pouco diferente já que a inflação está alta e aumentando e os juros reais estão negativos, embora historicamente também é mais que 4%: http://www.aposenteaos40.org/2020/01/TSR-no-brasil-25-anos-completos-de-historico.html

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  3. Confesso que quando li o titulo do post esperava que a regra tivesse sido revista para um valor menor que 4% dado o cenário atual e perspectivas sombrias devido a impressão desenfreada de dinheiro... não possuo conhecimento para contestar mas se eu já me sentia inseguro usando a de 4% agora fico ainda mais com a pulga atras da orelha!rs

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    1. Mesma sensação que tive ao ler o título da matéria no site gringo, mas ao ler, me surpreendi também. Achei que ele baixaria para 3 ou algo assim mas não, ele mesmo está usando 5% já que a média é 7% a o que realmente importa é a inflação, segundo ele. Interessante no mínimo.
      Abcs AA40

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    2. Tive a mesma impressão que vc Sr.IF365.

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  4. Também achei que fosse revisto para diminuir o percentual.

    E no caso do Brasil com inflação na casa dos seus 4,2% a.a , qual seria uma retirada segura?

    valeu

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    1. hahaha Pergunta de 1 milhão essa sua hein ! Só precisamos lembrar que a TSR não é algo de momento, é uma média de 30 anos, por isso ainda acho que 4% no Brasil e nos EUA é o mais seguro. Provavelmente muita gente em 2020 não bateu a inflação, nem com FIIs e ações nem com RF, mas é bom fazer uma média dos rendimentos acima da inflação dos 5 ou 10 últimos anos e ver como você está indo. Abcs AA40

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  5. Me corrijam se estou enganado mas como nos EUA aplicaçao financeira nao é tributada na fonte, o Mr Bengala (digo, Bengen) esta calculando tudo isso antes da mordida do Leao da Receita Federal que nao me é de muita utilidade a nao ser que ele me conte como ele engana o IRS ou vive nos EUA com uma renda tao baixa que ele fica isento.

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    1. FF, isto está claro em todos os estudos publicados por ele que sempre são pre-tax. Americanos (e vc morando ai sabe disso) podem deixar tudo nas contas Roth IRA e Roth 401k que são isentas, ou ainda em 401k ou tradicional IRA que serão tributados só depois dos 60, quando estão aposentados a e renda ativa é tão baixa que paga 0% em imposto sob ganho de capital até 80k anuais e 15% de 80ka 450k, ou seja, não é tão pouco não. Abcs AA40
      https://www.nerdwallet.com/article/taxes/capital-gains-tax-rates

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  6. Excelente post. Melhor do que o resultado em si, que já é fantástico, pois diminui o percurso para a jornada FIRE, é a continuidade do estudo do tema. Portanto, a segurança que nos é tão cara encontra fundamentos ainda mais sólidos.

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    1. Com a nova TSR de 5%, a regra de bolso aplicável é a seguinte, para cada R$ 1.000,00 que você gaste por mês, você precisa ter R$ 240.000,00 em investimentos. Pessoalmente, uso a seguinte estratégia mental. A cada 240k no meu portfólio significa mais um empregado ganhando salário-mínimo para mim.

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    2. Verdade Willy, isto de mais um empregado é uma boa maneira de pensar. Só cuidado que isto é para os EUA, no BRasil ainda não temos histórico muito menos inflação baixa para assumir que 5% é a TSR sustentável. Abcs AA40

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  7. Temerário ele dizer isso. Apesar de estar correto no sentido mais estrito possível, o valuation de hoje é totalmente diferente do período 1926-1990. Wade Pfau faz um contraponto interessante mostrando países em que 4% de TSR não deu certo. O mundo não é os EUA e o Brasil muito menos. Tenho a absoluta certeza que se fizer um monte carlo com bonds rendendo juro real negativo e stock com PL de 30 vai dar uma TSR bem mais baixa que 4,5%.

    Abs.,

    VR.

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    1. VR, uma honra ver vc por aqui. De certa forma sim, estes professores e CFAs se baseiam em dados apenas e não fazem projeções futuras como nós tentando adivinhar o futuro que nunca adivinhamos. Se os juros dos bonds ficarem neste patamar por vários anos é praticamente certo que vai impactar a TSR. Por enquanto a bolsa tem compensado mas como Shiller PE acima de 30 é dificil se manter assim por muito tempo também. Abcs e parabéns pelos 20Mi. AA40

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  8. A regra dos 4% no meu ponto de vista pode servir como base, mas pode ser ajustada dependendo cada pessoa, caso a caso.

    Por falar independência financeira e aposentaria antecipada. Hoje (dia 12/01/2021) às 18h30 vou fazer uma live no meu canal no Youtube Dinheiro Investimento e Lazer, com um convidado para falarmos das diferenças e semelhanças para esta quer seguir o caminho FIRE em Portugal e no Brasil será muito interessante.

    Abraço!

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